Tuesday, January 10, 2006

Parágrafos

fio

Norberto respirou fundo, arcou os ombros e soltou o ar, com uma expressão de alívio. Limpou a faca de cozinha na manga da camisa de flanela. Depois, passou o antebraço bem forte na boca e na testa, para retirar os pingos de sangue. Calmamente ficou de joelhos e se levantou. O semblante matinha-se sereno e com traços de mórbida consciência. Sabia que, dali pra frente, teria de conviver, todos os dias, com os conflitos e conivências do universo daqueles que matam por amor.


troca

Mirtes era jovem e solitária. Vivia em um sobradinho alugado, apenas na companhia de Nina, sua gata persa. Ambas conviviam diariamente abrigadas por um companheirismo movido por uma atmosfera blasé despojada e tipicamente felina. Uma noite, Nina saiu pela janela, como fazia comumente nas noites mais quentes de janeiro. Só voltou dois anos depois, com uma das patas quebrada e algumas histórias que nunca iria contar.

banzo

Sexta-feira, seis horas da tarde. Jonas desligou seu computador e afrouxou a gravata. Olhou o céu alaranjado pela janela do escritório. Pegou o carro e foi para casa. Ia passar dois dias tristes e sem motivação. Há tempos havia se desinteressado pelas inconstâncias degenerativas e confortantes do ócio.

asco

O líquido azedo fazia movimentos constantes pela traquéia. Os globos oculares tentavam, sem sucesso, dar uma volta completa em torno de si mesmos. Os dedos seguravam firme na borda do vaso.
- Nunca mais.

sina


Penteou minuciosamente os cabelos negros e se atirou na diagonal da cama. Não era mais dama.

1 Comments:

Blogger EU AMO OS CHIMPANZÉS said...

Nossa... kilindu!!!
Sem comentários... coisas de jornalistas melancólicos, huauhauhauhau.
E eu, graças à Deus acredito me encaixar nessa categoria! háhá
Nóis sofre , mas nóis gosta! hehe

11:26 AM  

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